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Comida a quilo e entregas em domicílio. – Comprou o apartamento e a vista. Tudo à vista. – Vamos acabar com os excessos – Dicas de Português, Dúvidas de Português, Língua Portuguesa, Matéria Português.

1.    Comida a quilo e entregas em domicílio

Hoje viraram moda os tais restaurantes self service, ou “serve-serve” como preferem alguns.
Há também os restaurantes que fazem “entregas à domicílio”. A crase seria um absurdo, já que domicílio é palavra masculina. Na verdade, nem a preposição “a” se justifica. Se o restaurante faz entregas em casa, no escritório, no quarto do hotel, por que fazer entregas “a domicílio”? O mais adequado, portanto, é fazer “entregas em domicílio”.
Quanto à desgraça da “comida à kilo”, é bom que você saiba que oficialmente a letra “k”, na língua portuguesa, só deve ser usada em palavras derivadas de nomes estrangeiros: darwinismo (de Darwin); em símbolos (K = potássio, Kr = criptônio); em abreviaturas: kg, km, kw (= minúsculas e sem plural).  Ao escrevermos por extenso, devemos substituir a letra “k” por “qu”: quilograma, quilômetro, quilowatt.
É importante lembrar também que grama (= unidade de massa) é substantivo masculino: um grama, duzentos gramas, trezentos gramas. Isso significa que é impossível haver crase. A comida deve, portanto, ser vendida a quilo (=com “qu” e sem o acento da crase).
É lógico que os restaurantes correrão um risco: o brasileiro gosta tanto de “comida à kilo” que poderá desconfiar da qualidade da verdadeira comida a quilo.
E outra dúvida é: DUZENTOS ou DUZENTAS gramas?
O certo é “duzentos gramas”.
“Duzentas gramas” só se fossem “duzentos pés de grama”, aquele vegetal que encontramos em muitos jardins.
A tal história de pedir “duzentas gramas de presunto” está errada. Pior ainda é “duzentas gramas de mortandela”. Sugiro até que você dê para algum “mendingo”!!!
A palavra GRAMA, para peso (=unidade de massa), é um substantivo masculino, por isso o correto é pedir “duzentos gramas de mortadela para o mendigo”.

2.    Comprou o apartamento e a vista. Tudo à vista.

O uso do acento da crase na locução “à vista” sempre gerou muita polêmica. Alguns autores, entre eles o mestre Napoleão Mendes de Almeida, afirmam não haver crase em “a vista”, pois seu correspondente masculino é “a prazo”. Isso comprovaria a ausência de artigo definido. A crase aa se comprova quando o correspondente masculino fica ao: “Referiu-se à carta” (=Referiu-se ao documento). O “a” de “a vista” seria apenas a preposição que introduz as locuções adverbiais.
Outros estudiosos, porém, como o mestre Adriano da Gama Kury, defendem o uso do acento grave indicativo da crase para todas as locuções (adverbiais, prepositivas e conjuncionais) de base feminina: à beça, à deriva, à direita, à distância, à francesa, à mão, à noite, à revelia, à toa, à vista, à vontade, às cegas, às claras, às vezes, à beira de, à base de, à custa de, à medida que, à proporção que…
O argumento usado pelo professor Adriano da Gama Kury é “o uso tradicional do acento pelos melhores escritores da nossa língua” e “a pronúncia aberta do a, em Portugal, nessas locuções, tal como qualquer a resultante de crase – diferente do timbre fechado do a pronome, artigo ou preposição”.
Eu também sou a favor do uso do acento grave em todas as locuções de base feminina. Além da simplificação, há o problema da clareza. “Comprar a vista” é bem diferente de “comprar à vista”. Sem o acento da crase, “a vista” poderia ser o objeto direto, ou seja, aquilo que se está comprando. “A vista” seria o panorama, ou pior, o olho. Mas aí já seria demais.
Para evitar confusões, quando quisermos indicar o modo como compramos ou vendemos alguma coisa, o melhor mesmo é escrevermos “à vista”, com acento grave.
Afinal, servir “à francesa” é bem diferente de “servir a francesa”. Ou não?

3.    Vamos acabar com os excessos

Ultimamente tenho observado um vício de linguagem muito curioso. São frases do tipo: “Aqui está o documento que ontem eu falei dele”; “São projetos que a direção acredita neles”; “São bons argumentos que concordamos com eles”.
Como se pode verificar, são exemplos extraídos do meio empresarial. É um vício típico da linguagem oral que também aparece na linguagem de profissionais de quem a sociedade espera a chamada língua padrão.
Para quem não entendeu a que vício estou me referindo, eu explico. Há pronomes sobrando. Em “Aqui está o documento que ontem eu falei dele”, o pronome relativo “que” e o pronome pessoal “(d)ele” substituem o mesmo substantivo (=documento). Bastaria usar o pronome relativo. O “dele” está sobrando. A causa é fácil de explicar: o brasileiro, em geral, tem muita dificuldade em respeitar a regência quando usa os pronomes relativos. Temos o hábito de usar simplesmente “que”, mesmo quando a regência do verbo ou do nome exija uma preposição. O uso de “falei dele” comprova que sabemos que a regência do verbo FALAR pede a preposição “de”.
Segundo a língua padrão, em vez de “Aqui está o documento que ontem eu falei”, deveríamos dizer “…o documento de que (ou do qual) eu falei”.
No segundo caso, o pronome “(n)eles” está sobrando. Se a direção acredita “em” projetos, “São projetos em que (ou nos quais) a direção acredita”.
E no terceiro exemplo, em vez de “São bons argumentos que concordamos com eles”, bastaria dizer “…argumentos com que (ou com os quais) concordamos”.

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