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Falando “certo” – Metamorfose e a metafonia – Concordância e Ortografia – Dúvidas e Dicas de Português – Língua Portuguesa – Matéria Português


1. Falando “certo”

Por que na Rede Globo só se fala “récorde” quando o “certo” é recorde.
Meus leitores têm alguma dose de razão. Digamos que, oficialmente, pelo menos segundo nossos principais dicionários e o Vocabulário Ortográfico publicado pela Academia Brasileira de Letras, o “certo” é dizer recorde (=”recórde”). Oficialmente, portanto, recorde é um vocábulo paroxítono (sem acento gráfico).
Eu gostaria de saber por que o “certo” é recorde se existe uma clara oscilação entre as duas pronúncias: recorde e récorde. Não é só na Rede Globo que ouvimos “récorde”. Uma boa parcela dos falantes da língua portuguesa, principalmente no Brasil, fala “récorde”. Pode até ser influência da Globo.
Outra verdade é que existem outras palavras que os nossos dicionários já registram com dupla pronúncia: xérox e xerox, dúplex e duplex, biótipo e biotipo…
Então, por que não aceitar récorde como variante legítima de recorde?
O caso de biótipo é um belo exemplo. Os vocábulos terminados em “tipo”, normalmente, são proparoxítonos: protótipo, arquétipo, genótipo, estereótipo. Por isso, oficialmente era biótipo. No Brasil, porém, a pronúncia biotipo (paroxítona) está consagrada, e os nossos dicionários já registram as duas pronúncias: biótipo e biotipo. É importante lembrar que isso não é uma exceção nem anomalia gramatical, pois existem outras palavras paroxítonas terminadas em “tipo”: linotipo, logotipo…
Outro caso que me intriga é o da palavra necropsia. Se falamos autópsia e biópsia, por que não podemos falar “necrópsia”? Parece incoerência, principalmente quando os nossos principais dicionários e o Vocabulário Orográfico da ABL registram biopsia e biópsia, autopsia e autópsia, mas só registravam necropsia.
Por que não “necrópsia”, se é assim que muitos brasileiros, talvez a maioria, falam. A boa notícia é que a última edição do Vocabulário Ortográfico, publicada em 2009 pela Academia Brasileira de Letras, registra as duas formas: necrópsia e necropsia.
Em razão disso tudo, não entendo por que impor uma pronúncia como “certa” (recorde) e a outra como “errada” (“récorde”).
Em qualquer concurso, devemos respeitar a grafia oficial. Entenda-se como oficial a forma registrada no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa publicado pela Academia Brasileira de Letras.
Segundo o acadêmico Evanildo Bechara:
São palavras oxítonas: cateter, Nobel, recém, refém, ruim, ureter…
São paroxítonas: avaro, caracteres, erudito, filantropo, ibero, látex, maquinaria, pudico, recorde…
São proparoxítonas: epíteto, ínterim, lêvedo, monólito, ômega…
Palavras que admitem dupla pronúncia: acróbata ou acrobata, crisântemo ou crisantemo, hieróglifo ou hieroglifo, Oceânia ou Oceania, ortoépia ou ortoepia, projétil ou projetil, autópsia ou autopsia, biópsia ou biopsia, necrópsia ou necropsia…

2. A metamorfose e a metafonia

Metamorfose é uma palavra formada por elementos de origem grega: META, que significa “mudança”, e MORFO, que significa “forma”. Metamorfose, portanto, é a “mudança da forma”. Corresponde à palavra transformação, de origem latina: TRANS (=META) + FORMA (=MORFO). Os sufixos “-ose”, do grego, e “-ção”, do latim, significam “ato ou efeito da ação, processo”.
Morfologia é a parte da gramática que estuda o aspecto formal das palavras: gênero (masculino/feminino), número (singular/plural), grau (aumentativo/diminutivo, comparativo/superlativo), elementos formadores das palavras (raízes, prefixos, sufixos, radicais, desinências…).
Metáfora é aquela figura de estilo que se caracteriza por uma “mudança”: as palavras são usadas num sentido figurado devido a uma comparação subjetiva por semelhança. Quando afirmamos que “a menina é uma flor”, o substantivo FLOR está usado fora do seu sentido real (a flor propriamente dita). Queremos dizer que a menina é tão linda ou delicada quanto uma flor. Comparamos subjetivamente a beleza da menina com a beleza de uma flor. Isso é metáfora.
E a metafonia?
O elemento grego FONIA – que conhecemos em sinfonia, telefone, microfone, fonética etc. – significa “som”. Metafonia, portanto, é a “mudança do som”. É o nome que se dá para um fenômeno curioso: são aqueles vocábulos em que a vogal tônica de timbre fechado /ô/ muda para timbre aberto /ó/, quando vão para o feminino ou para o plural: porco (/ô/) – porca e porcos (/ó/).
O problema é que existem palavras em que não ocorre metafonia: cachorro – cachorra e cachorros (/ô/). Existem aquelas que apresentam diferentes pronúncias: sogro (/ô/) – sogra (/ó/) e sogros (/ô/, no Brasil; /ó/, em Portugal).
Há palavras em que a metafonia acontece somente no plural: caroço – caroços; tijolo – tijolos; posto – postos; jogo – jogos…
Há palavras que não sofrem metafonia: bolso – bolsos; acordo – acordos; bolo – bolos; coco – cocos…
E há aquelas que nos deixam em dúvida: o plural de forno é “fôrnos” ou “fórnos”? Embora muitos pronunciem com timbre fechado, oficialmente devemos falar fornos com timbre aberto (/ó/).
Segundo o mestre Evanildo Bechara, sofrem metafonia (mudança de timbre na vogal tônica = /ô/ para /ó/): coro – coros; corpo – corpos; corvo – corvos; destroço – destroços; forno – fornos; foro – foros; fosso – fossos; miolo – miolos; poço – poços; socorro – socorros; torto – tortos; troco – trocos…
Não sofrem metafonia (=mantêm o timbre fechado /ô/): adornos, almoços, alvoroços, caolhos, contornos, esboços, esposos, globos, gozos, jorros, sogros, sopros, soros, transtornos…

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